Nutrição e Queda de Cabelo: Deficiências que Afetam os Fios
Como deficiências nutricionais causam queda de cabelo — ferro, zinco, vitamina D, biotina e proteína. O que suplementar e quando
Dra. Juliana Lima
CRM-SP 567890 | RQE 67890
O que é a Queda de Cabelo por Deficiência Nutricional?
A queda de cabelo por deficiência nutricional ocorre quando o organismo não dispõe de nutrientes essenciais para manter o ciclo de crescimento capilar. Os folículos pilosos estão entre as células de maior atividade metabólica do corpo humano, e sua divisão celular rápida exige um suprimento constante de vitaminas, minerais e macronutrientes.[1]
Quando há carência significativa de nutrientes como ferro, zinco, vitamina D, biotina ou proteínas, o corpo redireciona os recursos disponíveis para funções vitais, e o crescimento capilar — considerado "não essencial" — é prejudicado, podendo resultar em eflúvio telógeno ou afinamento crônico dos fios.[2]
Causas e Fatores de Risco
Deficiência de Ferro (Ferritina Baixa)
O ferro é fundamental para a produção de hemoglobina e para o metabolismo das células da matriz capilar. A deficiência de ferro é a carência nutricional mais comum no mundo e uma causa frequente de queda de cabelo, especialmente em mulheres em idade fértil.[3] Mesmo sem anemia franca, níveis baixos de ferritina (reserva de ferro) podem desencadear queda capilar.
Deficiência de Zinco
O zinco participa da síntese de proteínas, divisão celular e função imunológica. Sua deficiência prejudica a proliferação das células da matriz do folículo e pode causar tanto queda difusa quanto alterações na estrutura do fio.[1]
Deficiência de Vitamina D
Receptores de vitamina D estão presentes nos folículos capilares e desempenham papel na diferenciação do ciclo capilar. Estudos mostram associação entre níveis séricos baixos de vitamina D e alopecia, incluindo eflúvio telógeno e alopecia areata.[1]
Deficiência de Biotina (Vitamina B7)
Embora a deficiência verdadeira de biotina seja rara em pessoas com alimentação normal, pode ocorrer em casos de uso prolongado de anticonvulsivantes, antibióticos ou consumo excessivo de clara de ovo crua (que contém avidina, uma proteína que inibe a absorção da biotina).[1]
Deficiência de Proteínas
O cabelo é composto predominantemente de queratina, uma proteína. Dietas severamente hipoproteicas ou distúrbios de absorção podem comprometer a síntese de queratina e causar fios fracos e quebradiços.[2]
Grupos de Maior Risco
- Mulheres com menstruação abundante
- Vegetarianos e veganos sem planejamento nutricional adequado
- Pessoas em dietas restritivas ou com distúrbios alimentares
- Pacientes bariátricos (pós-cirurgia)
- Idosos com má absorção intestinal
- Portadores de doenças inflamatórias intestinais
Sintomas e Sinais
- Queda difusa dos cabelos (semelhante ao eflúvio telógeno)
- Fios finos, secos e sem brilho
- Cabelos quebradiços que não crescem além de certo comprimento
- Unhas frágeis e quebradiças (frequentemente associadas)
- Fadiga, palidez e falta de ar (sugestivos de anemia ferropriva)
- Feridas que demoram a cicatrizar (possível deficiência de zinco)
- Dores musculares e fraqueza (possível deficiência de vitamina D)
- Queda lenta e progressiva, diferente da queda abrupta do eflúvio pós-estresse
Diagnóstico
A avaliação deve incluir:
- Anamnese nutricional: Investigar padrão alimentar, dietas restritivas, cirurgias bariátricas, distúrbios gastrointestinais.
- Exame clínico: Pull test, avaliação da qualidade dos fios e unhas, dermatoscopia do couro cabeludo.
- Exames laboratoriais essenciais:
- Ferritina sérica: Níveis ideais para saúde capilar acima de 40-70 ng/mL (muitos dermatologistas consideram esse limiar, embora o valor de referência laboratorial aceite como normal acima de 12 ng/mL)[3]
- Hemograma completo (avaliar anemia)
- Zinco sérico
- 25-hidroxivitamina D (ideal acima de 30 ng/mL)
- Albumina e proteínas totais
- Vitamina B12 e ácido fólico
- TSH (para excluir causa tireoidiana)
- Tricoscopia: Pode revelar sinais de miniaturização ou padrões sugestivos de deficiência.
Nutrientes Essenciais para o Cabelo
| Nutriente | Função Capilar | Fontes Alimentares | Dose Diária Recomendada |
|---|---|---|---|
| Ferro | Oxigenação do folículo | Carnes vermelhas, feijão, lentilha, espinafre | 18 mg (mulheres), 8 mg (homens) |
| Zinco | Síntese de queratina, divisão celular | Ostras, carne bovina, castanhas, sementes | 8-11 mg |
| Vitamina D | Ciclo folicular | Exposição solar, peixes gordurosos, ovos | 600-2000 UI |
| Biotina (B7) | Metabolismo de aminoácidos | Ovos, fígado, nozes, salmão | 30 mcg |
| Vitamina B12 | Formação de hemácias | Carnes, laticínios, ovos | 2,4 mcg |
| Ácido fólico | Divisão celular | Vegetais verdes escuros, leguminosas | 400 mcg |
| Proteínas | Estrutura do fio (queratina) | Carnes, ovos, leguminosas, laticínios | 0,8-1 g/kg de peso |
| Ômega-3 | Anti-inflamatório, hidratação | Peixes, linhaça, chia | 250-500 mg EPA+DHA |
Tratamentos Disponíveis
Correção de Deficiências Específicas
- Ferro: Suplementação oral com sulfato ferroso ou ferro quelado, preferencialmente em jejum com vitamina C para melhorar a absorção. Duração: 3 a 6 meses até normalizar a ferritina.[3]
- Zinco: Suplementação de 15-30 mg/dia quando há deficiência comprovada. Evitar uso prolongado sem monitoramento (pode interferir na absorção do cobre).[1]
- Vitamina D: Doses de reposição entre 1.000-5.000 UI/dia, conforme o nível sérico. Em deficiências graves, doses de ataque mais altas podem ser prescritas.
- Biotina: 2,5-5 mg/dia quando há deficiência. Importante: doses altas de biotina podem interferir em exames laboratoriais (troponina, TSH, hormônios tireoidianos).
Adequação Alimentar
- Dieta variada e equilibrada é a base do tratamento
- Priorizar proteínas de alto valor biológico (carnes, ovos, laticínios)
- Incluir fontes vegetais de ferro combinadas com vitamina C
- Considerar acompanhamento com nutricionista, especialmente em dietas restritivas
Tratamentos Complementares
- Minoxidil tópico pode ser associado quando há afinamento significativo
- Nutricosméticos (suplementos capilares): úteis quando contêm nutrientes deficientes, mas não substituem uma alimentação adequada
- Para opções de medicamentos, consulte nossos artigos sobre medicamentos para queda de cabelo
Prevenção
- Manter alimentação variada e rica em nutrientes essenciais
- Incluir fontes de ferro heme (carne vermelha) e não-heme (leguminosas) na dieta
- Expor-se ao sol regularmente (15-20 minutos diários) para vitamina D
- Evitar dietas muito restritivas ou modismos alimentares sem orientação profissional
- Após cirurgia bariátrica, manter acompanhamento nutricional rigoroso e suplementação
- Monitorar níveis de ferritina, vitamina D e zinco anualmente, especialmente em grupos de risco
- Gerenciar o estresse, que também pode prejudicar a absorção de nutrientes
Quando Procurar um Médico
Procure um dermatologista ou nutricionista se:
- A queda de cabelo estiver associada a fadiga, palidez ou fraqueza
- Estiver seguindo dieta restritiva e notar queda capilar
- For vegetariano/vegano e não fizer suplementação de B12
- Tiver sido submetido a cirurgia bariátrica nos últimos 12 meses
- A queda de cabelo não melhorar após 3 meses de suplementação adequada
- Tiver diagnóstico de doença inflamatória intestinal ou má absorção
- Quiser iniciar suplementação — é fundamental verificar deficiências reais por exames antes de suplementar indiscriminadamente
Perguntas Frequentes
Tomar biotina faz o cabelo crescer mais rápido? Somente se houver deficiência de biotina, o que é raro. Não há evidência científica de que suplementar biotina em pessoas com níveis normais acelere o crescimento capilar ou reduza a queda.[1]
Qual o nível ideal de ferritina para o cabelo? Embora os laboratórios aceitem como normal acima de 12 ng/mL, muitos dermatologistas e tricologistas recomendam manter a ferritina acima de 40-70 ng/mL para saúde capilar ideal.[3]
Suplementos capilares funcionam? Funcionam quando contêm nutrientes que estão realmente deficientes no organismo. Suplementar vitaminas e minerais que já estão em níveis adequados geralmente não traz benefício capilar e pode causar efeitos adversos.[2]
Dieta vegetariana causa queda de cabelo? Não necessariamente, mas exige planejamento. Vegetarianos e veganos devem monitorar ferro, zinco, B12, vitamina D e proteínas, e suplementar quando necessário.
Quanto tempo leva para o cabelo se recuperar após corrigir a deficiência? A queda geralmente estabiliza em 2 a 3 meses após a normalização dos níveis nutricionais, e o rebrote visível pode levar de 6 a 12 meses. A velocidade de recuperação varia conforme a gravidade e duração da deficiência.
Referências
- Almohanna HM, Ahmed AA, Tsatalis JP, Tosti A. The Role of Vitamins and Minerals in Hair Loss: A Review. Dermatol Ther (Heidelb). 2019;9(1):51-70. doi:10.1007/s13555-018-0278-6
- Rushton DH. Nutritional factors and hair loss. Clin Exp Dermatol. 2002;27(5):396-404. doi:10.1046/j.1365-2230.2002.01076.x
- Trost LB, Bergfeld WF, Calogeras E. The diagnosis and treatment of iron deficiency and its potential relationship to hair loss. J Am Acad Dermatol. 2006;54(5):824-844. doi:10.1016/j.jaad.2005.11.1104
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Aviso medico: Este conteudo e informativo e nao substitui consulta com dermatologista ou medico especialista. Sempre procure orientacao profissional antes de iniciar qualquer tratamento.