Causas

Eflúvio Telógeno: causas, diagnóstico e como tratar

Eflúvio telógeno é a causa mais comum de queda difusa em mulheres. Entenda os gatilhos, como diagnosticar e os tratamentos disponíveis.

Dr. Ricardo Silva

CRM-SP 123456 | RQE 78901

Eflúvio Telógeno: causas, diagnóstico e como tratar

O eflúvio telógeno é considerado a causa mais comum de queda de cabelo difusa em mulheres até os 50 anos e uma das queixas mais frequentes em consultórios de dermatologia. Diferentemente da calvície progressiva, trata-se de uma condição benigna e, na maioria dos casos, reversível: cerca de 95% dos pacientes com a forma aguda recuperam completamente a densidade capilar[1].

Apesar de benigno, o impacto emocional pode ser significativo. Entender o mecanismo, identificar o gatilho e conduzir o diagnóstico correto são passos fundamentais para um tratamento eficaz.


O que é o eflúvio telógeno

O ciclo capilar divide-se em três fases: anágena (crescimento, ~85% dos fios), catágena (transição) e telógena (repouso, ~15% dos fios). Em situações de estresse físico ou metabólico, o organismo precipita folículos da fase anágena diretamente para a fase telógena — aumentando de forma abrupta a proporção de fios "programados" para cair.[2]

O resultado é uma queda difusa intensa, geralmente iniciada 2 a 3 meses após o evento desencadeante, que corresponde ao tempo médio da fase telógena. A perda diária de fios sobe dos fisiológicos 100–120 para 200–300 ou mais fios por dia.[1]

A denominação foi sistematizada por Headington em 1993 e revisada por Rebora em 2019, que descreveu cinco mecanismos patogênicos distintos — desde a saída prematura da anágena (como no pós-parto) até o prolongamento anormal da telógena (como no hipotireoidismo).[1]


Causas e fatores de risco

A identificação do gatilho é a etapa mais importante do tratamento. Em aproximadamente 70% dos casos agudos, uma causa específica é encontrada na anamnese.[3]

Causas fisiológicas

  • Pós-parto: queda do estrogênio após o nascimento é a causa mais clássica; início típico entre 2 e 4 meses após o parto
  • Febre alta e infecções agudas: influenza, pneumonia e COVID-19 — esta última foi identificada como gatilho em 31,3% a 66,3% dos pacientes infectados, dependendo da gravidade[5][6]
  • Cirurgia de grande porte e trauma físico severo
  • Estresse emocional intenso: luto, crises pessoais graves

Causas endócrinas e metabólicas

  • Hipotireoidismo e hipertireoidismo: doenças da tireoide são causa clássica e exigem triagem com TSH em todo paciente com queda difusa inexplicada
  • Deficiência de ferritina: a mais prevalente em estudos laboratoriais, presente em até 45,2% dos pacientes com eflúvio telógeno[8]
  • Deficiência de vitamina D: encontrada em 33,9% dos casos em estudo recente[8]
  • Deficiência de zinco, vitamina B12 e folato
  • Dietas restritivas e cirurgia bariátrica: a restrição calórica agressiva precipita a queda em 2 a 4 meses

Medicamentos frequentemente associados

Beta-bloqueadores, anticoagulantes (heparina, varfarina), retinoides, anticonvulsivantes, antidepressivos e contraceptivos orais (especialmente na descontinuação) estão entre os principais.[3] O início da queda ocorre tipicamente 3 meses após o início do uso.


Sintomas e sinais

O achado central é o aumento súbito e difuso da queda capilar, percebido pelo paciente na escova, no ralo do chuveiro e no travesseiro. Os fios apresentam bulbo branco arredondado (característica dos fios em telógena), sem bainha radicular.

Diferentemente da alopecia androgenética, não há padrão localizado de rarefação — o couro cabeludo perde volume de forma homogênea, sem áreas de calvície definida. O couro cabeludo em si apresenta aspecto normal, sem eritema, descamação ou cicatrizes.

Alguns pacientes referem tricodínia — sensação de formigamento, queimação ou dor no couro cabeludo, especialmente na região occipital — que corresponde ao sinal de folículos em transição ativa.[2]


Diagnóstico

O diagnóstico é predominantemente clínico, baseado na anamnese e no exame físico. Em ~30% dos casos agudos, nenhum gatilho é identificado.[3]

Teste de tração (hair pull test)

O médico traciona gentilmente cerca de 60 fios em três regiões do couro cabeludo (após 24h sem lavagem). A extração de mais de 6 fios (>10% dos tracionados) indica shedding ativo e é positiva em mais de 50% dos casos de eflúvio telógeno agudo.[2]

Tricograma (trichogram)

Extração de 40 a 60 fios com análise microscópica. O critério diagnóstico é a presença de mais de 25% de fios em telógena. Na proporção normal, a razão anágena:telógena é de aproximadamente 85:15.[2]

Tricoscopia (dermatoscopia do couro cabeludo)

Achados sugestivos: predominância de pontos amarelos (folículos vazios), ausência de miniaturização folicular e linha frontal de implantação preservada. Útil para diferenciar o eflúvio telógeno da alopecia androgenética e de outras condições.

Exames laboratoriais recomendados

A investigação deve incluir hemograma completo, ferritina sérica, TSH, vitamina D (25-OH), vitamina B12, zinco e, quando indicado, anticorpos anti-TPO e FAN.[3] A ferritina é o marcador mais sensível para deficiência de ferro — valores normais não excluem depleção, especialmente em contextos inflamatórios.

Biópsia de couro cabeludo

Raramente necessária quando a história e o pull test são característicos. Indicada em casos de diagnóstico incerto ou suspeita de condição mista.


Classificação

Característica ET Agudo ET Crônico
Duração < 6 meses > 6 meses
Gatilho identificável ~70% dos casos Frequentemente ausente
Perfil típico Qualquer adulto após estressor Mulheres entre 30 e 60 anos
Prognóstico Excelente — 95% de recuperação Bom cosmético, mas pode persistir anos

O eflúvio telógeno crônico pode se manifestar de forma intermitente em mulheres acima de 40 anos, com episódios cíclicos de queda intensa possivelmente relacionados a flutuações hormonais. Embora o prognóstico cosmético seja favorável, a condição pode persistir por anos sem tratamento da causa subjacente.[4]


Tratamentos disponíveis

1. Tratamento da causa de base

A conduta mais eficaz é identificar e eliminar o gatilho. A correção de deficiências nutricionais (ferritina, vitamina D, zinco, B12), o tratamento de doenças tireoidianas e a substituição de medicamentos causadores são os pilares da abordagem.[1][3]

2. Suplementação nutricional

Estudos com formulações combinando ferro, zinco, vitamina D e complexo B demonstraram melhora significativa da razão anágena/telógena após 16 semanas.[8] A suplementação deve ser direcionada às deficiências comprovadas laboratorialmente — a suplementação indiscriminada não tem embasamento científico. Consulte seu dermatologista ou endocrinologista antes de iniciar qualquer suplemento.

3. Minoxidil

O minoxidil tópico não foi estabelecido como promotor de recuperação no eflúvio telógeno isolado, mas é frequentemente prescrito quando há concomitância com alopecia androgenética ou quando a recuperação se mostra mais lenta que o esperado. O minoxidil oral em baixas doses tem demonstrado eficácia e boa tolerabilidade como alternativa ao uso tópico.[1]

4. PRP e outras terapias

O PRP capilar apresenta evidências preliminares positivas, especialmente em casos de eflúvio telógeno pós-COVID-19. Tratamentos como mesoterapia capilar também são utilizados como adjuvantes, com evidências ainda limitadas para esta indicação específica.

Timeline de recuperação esperada

Período O que esperar
0–3 meses após o gatilho Fase de shedding ativo — queda intensa
2–3 meses após cessar o gatilho Início da recuperação na maioria dos casos
6 meses Resolução espontânea da maioria dos casos agudos
6–12 meses Crescimento capilar visível
12–18 meses Densidade recuperada na maioria dos pacientes

Prevenção

Não existe prevenção específica, mas algumas medidas reduzem o impacto:

  • Manutenção de estoques nutricionais adequados: ferritina, vitamina D e proteínas são os principais
  • Consulta precoce em situações de risco: pós-parto, pós-cirurgia bariátrica, após infecções graves e durante uso de medicamentos de risco
  • Evitar dietas restritivas sem supervisão médica
  • Rastreamento de doenças tireoidianas em mulheres com queda difusa inexplicada
  • Manejo do estresse crônico

Quando procurar um médico

Buscar avaliação dermatológica ou tricológica se:

  • A queda ultrapassar 100–150 fios/dia de forma persistente por mais de 4 semanas
  • A queda for acompanhada de fadiga, ganho de peso ou intolerância ao frio (possível hipotireoidismo)
  • Não houver recuperação espontânea após 6 meses
  • A queda seguir um padrão localizado ou surgir em placas
  • Houver suspeita de medicamento causador
  • No pós-parto, a queda não melhorar após 12 meses

O especialista indicado é o dermatologista, preferencialmente com formação em tricologia. Quando há suspeita de causa endócrina, a avaliação conjunta com endocrinologista é recomendada.


Perguntas frequentes

O eflúvio telógeno causa calvície permanente? Não. Ao contrário da alopecia androgenética, o eflúvio telógeno não destrói os folículos — os fios caem e crescem novamente após a resolução do gatilho. Casos crônicos podem reduzir o volume capilar ao longo dos anos, mas raramente causam calvície franca.

Quanto tempo leva para o cabelo crescer de volta? Na forma aguda, a maioria dos pacientes percebe crescimento visível entre 6 e 12 meses após a cessação da queda. A densidade total pode levar até 18 meses para ser restaurada.

Estresse cotidiano pode causar eflúvio telógeno? O estresse do dia a dia raramente é suficiente para desencadear o quadro. O gatilho típico é um evento estressante agudo e intenso — não o estresse crônico de baixa intensidade. Se o estresse for relevante, deve ser avaliado em conjunto com outros fatores.

É possível ter eflúvio telógeno e alopecia androgenética ao mesmo tempo? Sim. Estudos mostram que em mulheres com queda pós-parto, 56% apresentam eflúvio telógeno concomitante com alopecia androgenética.[7] O tricograma e a tricoscopia ajudam a distinguir as duas condições.

O teste de pull test pode ser feito em casa? O teste pode ser realizado, mas a interpretação adequada requer treinamento. Automedicar-se com base no resultado domiciliar não é recomendado — consulte seu dermatologista para avaliação completa.


Referências

  1. Rebora A. Telogen effluvium: a comprehensive review. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2019;12:583-590. doi:10.2147/CCID.S200471

  2. Hughes EC, Syed HA, Saleh D. Telogen Effluvium. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026. PMID 28613598.

  3. Asghar F, Shamim N, Farooque U, Sheikh H, Aqeel R. Telogen Effluvium: A Review of the Literature. Cureus. 2020;12(5):e8320. doi:10.7759/cureus.8320

  4. Daunton A, Harries M, Sinclair R, Paus R, Tosti A, Messenger A. Chronic Telogen Effluvium: Is it a Distinct Condition? A Systematic Review. Am J Clin Dermatol. 2023;24(4):513-520. doi:10.1007/s40257-023-00760-0

  5. Seyfi S, Alijanpour R, Aryanian Z, Ezoji K, Mahmoudi M. Prevalence of telogen effluvium hair loss in COVID-19 patients and its relationship with disease severity. J Med Life. 2022;15(5):631-634. doi:10.25122/jml-2021-0380

  6. Sharquie KE, Jabbar RI. COVID-19 infection is a major cause of acute telogen effluvium. Ir J Med Sci. 2022;191(4):1677-1681. doi:10.1007/s11845-021-02754-5

  7. Jeon JJ, Kim YH, Kang H, et al. Global epidemiology of telogen effluvium after the COVID-19 pandemic: A systematic review and modeling study. JAAD Int. 2024;18:24-26. doi:10.1016/j.jdin.2024.08.018

  8. Malkud S. Telogen Effluvium: A Review. J Clin Diagn Res. 2015;9(9):WE01-WE03. doi:10.7860/JCDR/2015/15219.6492

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Aviso medico: Este conteudo e informativo e nao substitui consulta com dermatologista ou medico especialista. Sempre procure orientacao profissional antes de iniciar qualquer tratamento.