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Tireoide e Queda de Cabelo: Causas, Diagnóstico e Tratamento

A disfunção tireoidiana afeta os fios de até 50% dos pacientes. Entenda como o hipotireoidismo e o hipertireoidismo causam queda de cabelo e como tratar.

Dra. Carolina Oliveira

CRM-RJ 654321 | RQE 10987

Tireoide e Queda de Cabelo: Causas, Diagnóstico e Tratamento

A queda de cabelo provocada por alterações na tireoide é uma das causas hormonais mais frequentes — e, ao mesmo tempo, uma das mais subdiagnosticadas. Muitos pacientes percebem os fios enfraquecendo, a textura mudando e o volume diminuindo meses antes de qualquer outro sintoma de disfunção tireoidiana. Quando a origem hormonal não é investigada, o tratamento capilar isolado costuma ser insatisfatório.

Aproximadamente 18 milhões de brasileiros convivem com algum grau de disfunção da tireoide[1], e tanto a produção insuficiente quanto a produção excessiva de hormônios tireoidianos pode comprometer o ciclo de crescimento dos fios. Este artigo apresenta os mecanismos envolvidos, os sinais de alerta, o processo diagnóstico e as perspectivas de recuperação capilar após o tratamento.


O que é a Disfunção Tireoidiana

A tireoide é uma glândula em forma de borboleta localizada na base do pescoço que produz os hormônios tiroxina (T4) e triiodotironina (T3). Esses hormônios regulam o metabolismo de praticamente todas as células do organismo — incluindo as células dos folículos pilosos.

Quando a glândula produz hormônios em quantidade insuficiente, ocorre o hipotireoidismo. Quando produz em excesso, o quadro é chamado de hipertireoidismo. As formas autoimunes — tireoidite de Hashimoto (causa mais comum de hipotireoidismo) e doença de Graves (causa mais comum de hipertireoidismo) — são particularmente relevantes para a saúde capilar, pois envolvem uma resposta imune que também pode atacar os folículos pilosos.

No Brasil, estima-se que o hipotireoidismo afete entre 8% e 12% da população, com maior prevalência em mulheres e em pessoas acima de 40 anos[1]. O estudo ELSA-Brasil, maior coorte de adultos do país, confirmou elevada incidência de doenças tireoidianas na população brasileira[2].


Causas e Fatores de Risco

A disfunção tireoidiana pode surgir por diversas causas. As mais comuns incluem:

  • Doenças autoimunes — tireoidite de Hashimoto e doença de Graves são as causas mais frequentes de hipotireoidismo e hipertireoidismo, respectivamente
  • Deficiência de iodo — ainda presente em algumas regiões brasileiras, pode comprometer a síntese de T3 e T4
  • Medicamentos — amiodarona, lítio, interferona e alguns quimioterápicos podem induzir hipotireoidismo
  • Pós-tireoidectomia — a remoção cirúrgica parcial ou total da glândula exige reposição hormonal permanente
  • Tireoidite pós-parto — condição autoimune transitória que ocorre nos 12 meses após o parto, podendo causar hipo ou hipertireoidismo

Fatores de risco para disfunção tireoidiana:

  • Sexo feminino (risco 5 a 8 vezes maior)
  • Histórico familiar de doença tireoidiana
  • Outras doenças autoimunes (diabetes tipo 1, artrite reumatoide, lúpus)
  • Idade acima de 60 anos
  • Gravidez e pós-parto
  • Uso de medicamentos que interferem na função tireoidiana

Como a Tireoide Afeta o Ciclo Capilar

Os hormônios tireoidianos T3 e T4 exercem ação direta nos folículos pilosos[3]. Estudos demonstraram que esses hormônios prolongam a fase anágena (crescimento), estimulam a proliferação das células da matriz capilar, modulam a expressão de queratinas e retardam a apoptose folicular[3].

Quando os níveis hormonais se desequilibram, o ciclo capilar é afetado de formas distintas:

No hipotireoidismo: O metabolismo desacelerado prolonga artificialmente a fase telógena (queda/repouso), reduzindo a proporção de folículos em fase de crescimento. O resultado é um eflúvio telógeno difuso — queda aumentada de fios em todo o couro cabeludo, com possível comprometimento também das sobrancelhas (especialmente a porção lateral)[4]. Os fios tendem a ficar secos, quebradiços e sem brilho.

No hipertireoidismo: O excesso hormonal acelera os ciclos capilares, levando os folículos a entrar prematuramente na fase de queda. A resistência tensil dos fios diminui, e a queda difusa é igualmente característica[4]. Aproximadamente 50% dos pacientes com hipertireoidismo apresentam queda capilar perceptível, contra 33% dos pacientes com hipotireoidismo[4].

Associação com alopecia areata: Pacientes com disfunção tireoidiana têm risco significativamente aumentado de alopecia areata. Um estudo de randomização mendeliana de 2023 demonstrou que o hipotireoidismo aumenta causalmente o risco de alopecia areata[5]. Pesquisa genética publicada em 2024 confirmou associação bidirecional entre disfunção tireoidiana e alopecia areata, com mecanismos autoimunes compartilhados entre as duas condições[6].


Sintomas e Sinais

A queda de cabelo raramente é o único sinal de disfunção tireoidiana. Identificar os sintomas associados é fundamental para orientar a investigação.

Hipotireoidismo — sintomas frequentes:

  • Fadiga e sonolência excessiva
  • Ganho de peso inexplicável
  • Intolerância ao frio
  • Pele seca e descamativa
  • Constipação intestinal
  • Bradicardia (frequência cardíaca baixa)
  • Queda difusa dos cabelos, com fios secos e quebradiços
  • Queda do terço lateral das sobrancelhas (sinal de Hertoghe)
  • Edema palpebral e facial

Hipertireoidismo — sintomas frequentes:

  • Perda de peso sem dieta
  • Taquicardia e palpitações
  • Intolerância ao calor e sudorese excessiva
  • Tremores finos nas mãos
  • Nervosismo e ansiedade
  • Diarreia
  • Queda difusa dos cabelos, com fios finos e fracos
  • Olhos protuberantes (exoftalmia), na doença de Graves

A queda capilar associada à tireoide é tipicamente difusa (distribuída por todo o couro cabeludo), ao contrário do padrão em coroa da alopecia androgênica. Não há áreas de calvície circunscritas, a não ser em casos de alopecia areata concomitante.


Diagnóstico

O diagnóstico da disfunção tireoidiana é laboratorial. Os principais exames solicitados são:

Exame O que avalia Valores de referência (adultos)
TSH Hormônio estimulante da tireoide — principal triagem 0,4 a 4,0 mUI/L
T4 livre (FT4) Hormônio tireoidiano ativo 0,8 a 1,8 ng/dL
T3 livre (FT3) Forma mais ativa — útil em hipertireoidismo 2,3 a 4,2 pg/mL
Anti-TPO Anticorpo antitireoperoxidase — rastreio de Hashimoto < 35 UI/mL
Anti-Tg Anticorpo antitireoglobulina < 40 UI/mL
TRAb Anticorpo receptor de TSH — confirma Graves Negativo

O TSH é o exame de triagem inicial. TSH elevado indica hipotireoidismo; TSH suprimido, hipertireoidismo. Os demais exames são solicitados conforme o quadro clínico.

Para a investigação capilar, o dermatologista ou tricologista pode complementar com tricoscopia e avaliação do trichograma para quantificar a proporção de fios em fase telógena. Escalas como a de Ludwig (para mulheres) e a de Hamilton-Norwood (para homens) auxiliam na classificação do padrão de queda, diferenciando o eflúvio telógeno da alopecia androgênica.


Classificação

A queda de cabelo por disfunção tireoidiana se enquadra em dois padrões principais:

1. Eflúvio telógeno difuso — o mais comum. Queda aumentada de fios em telógeno por todo o couro cabeludo. Reversível com o tratamento da causa.

2. Alopecia areata — placas de queda circunscrita associadas à autoimunidade tireoidiana. Tratamento específico necessário; ver alopecia areata.

Em hipotireoidismo grave e prolongado, pode haver comprometimento da qualidade do fio (ressecamento, quebra, perda de brilho) independente da queda em si.


Tratamentos Disponíveis

O tratamento da queda capilar associada à tireoide começa, obrigatoriamente, pelo controle da disfunção hormonal. A normalização dos níveis de T3 e T4 é a intervenção mais eficaz para a recuperação dos fios.

Hipotireoidismo: A reposição com levotiroxina (T4 sintético) é o tratamento padrão. A dose é ajustada individualmente com base no TSH, reavaliado a cada 6 a 8 semanas até a estabilização. Nas primeiras 4 a 8 semanas de tratamento, é comum um aumento transitório da queda — fenômeno conhecido como eflúvio telógeno induzido pelo medicamento, que indica que o ciclo capilar está se reiniciando e não deve ser interpretado como piora permanente[4].

Hipertireoidismo: O tratamento inclui medicamentos antitireoidianos como metimazol ou propiltiouracil (PTU), iodo radioativo ou, em alguns casos, tireoidectomia. A escolha depende da causa, da gravidade e do perfil do paciente.

Suporte capilar durante o tratamento: Enquanto os níveis hormonais são estabilizados, algumas medidas podem minimizar a queda:

  • Suplementação de zinco e vitamina D, frequentemente deficientes em pacientes com hipotireoidismo
  • Shampoos suaves, sem sulfatos agressivos
  • Evitar procedimentos químicos e térmicos intensos durante o período de fragilidade capilar

Minoxidil tópico pode ser considerado como adjuvante em casos de queda prolongada, mas apenas após o controle da disfunção tireoidiana e mediante orientação médica. Não há indicação de transplante capilar em queda de origem hormonal ativa.


Prevenção

A disfunção tireoidiana frequentemente não tem prevenção primária possível, especialmente nas formas autoimunes. No entanto, algumas medidas reduzem o risco de progressão e de queda capilar secundária:

  • Triagem regular: mulheres acima de 35 anos, gestantes e pessoas com histórico familiar devem dosar o TSH anualmente
  • Reposição adequada de iodo: consumo regular de sal iodado e alimentos ricos em iodo (peixes, frutos do mar, algas)
  • Controle de doenças autoimunes: acompanhamento endocrinológico regular em pacientes com Hashimoto ou outras condições autoimunes
  • Monitoramento pós-parto: triagem de tireoidite pós-parto entre 1 e 12 meses após o parto, especialmente em mulheres com anti-TPO positivo na gestação

Quando Procurar um Médico

Procure um endocrinologista ou clínico geral para avaliação tireoidiana se você apresentar:

  • Queda de cabelo difusa de início relativamente súbito (semanas a meses)
  • Queda associada a sintomas sistêmicos como fadiga extrema, ganho ou perda de peso inexplicável, intolerância ao frio ou ao calor
  • Queda do terço externo das sobrancelhas
  • Histórico pessoal ou familiar de doença tireoidiana ou autoimune
  • Diagnóstico de alopecia areata (recomendar triagem tireoidiana de rotina)
  • Queda persistente após parto

O diagnóstico precoce é fundamental: quanto antes a disfunção for corrigida, maior a probabilidade de recuperação completa dos fios. Consulte seu médico ou dermatologista antes de iniciar qualquer tratamento capilar.


Perguntas Frequentes

Quanto tempo leva para o cabelo crescer novamente após o tratamento da tireoide? A recuperação capilar costuma começar entre 3 e 6 meses após a normalização dos hormônios tireoidianos, com resultado mais visível entre 6 e 12 meses. Em alguns pacientes, a recuperação completa pode levar até 18 meses.

O hipotireoidismo subclínico (TSH levemente alterado) também causa queda de cabelo? Sim, em alguns pacientes. Mesmo alterações subclínicas podem comprometer o ciclo capilar, especialmente em pessoas mais sensíveis. A decisão de tratar depende do quadro clínico e deve ser individualizada pelo médico.

Posso usar minoxidil enquanto trato a tireoide? O minoxidil pode ser utilizado como adjuvante, mas o controle da disfunção hormonal é a intervenção prioritária. Converse com seu dermatologista para avaliar a indicação.

A queda por tireoide é permanente? Na maioria dos casos, não. O eflúvio telógeno causado por disfunção tireoidiana é reversível com o tratamento hormonal adequado. Exceção são casos de alopecia areata extensa ou queda muito prolongada sem tratamento.

A levotiroxina pode causar queda de cabelo? Sim, temporariamente. Nas primeiras semanas de tratamento, pode ocorrer aumento da queda devido ao reinício do ciclo capilar. Esse efeito é transitório e não indica piora do quadro.


Referências

  1. Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Epidemiologia das doenças tireoidianas no Brasil. Disponível em: https://www.endocrino.org.br

  2. Schmidt MI, et al. Incidence of thyroid diseases: Results from the Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (ELSA-Brasil). Arq Bras Endocrinol Metabol. 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/j/aem/a/PZWqJmXSdQpVdmk3kK8hz7D/

  3. van Beek N, Bodó E, Kromminga A, et al. Thyroid hormones directly alter human hair follicle functions: anagen prolongation and stimulation of both hair matrix keratinocyte proliferation and hair pigmentation. J Clin Endocrinol Metab. 2008;93(11):4381–4388. doi:10.1210/jc.2008-0283

  4. Hussein RS, Atia T, Bin Dayel S. Impact of Thyroid Dysfunction on Hair Disorders. Cureus. 2023;15(8):e43266. doi:10.7759/cureus.43266

  5. Xin W, et al. Mendelian randomization study highlights hypothyroidism as a causal determinant of alopecia areata. Front Endocrinol. 2024;14:1309620. doi:10.3389/fendo.2023.1309620

  6. Wang X, et al. The genetic link between thyroid dysfunction and alopecia areata: a bidirectional two-sample Mendelian randomization study. Front Endocrinol. 2024;15:1440941. doi:10.3389/fendo.2024.1440941

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Aviso medico: Este conteudo e informativo e nao substitui consulta com dermatologista ou medico especialista. Sempre procure orientacao profissional antes de iniciar qualquer tratamento.